Madame Bovary - Flaubert
Nesse livro Flaubert nos conta a história de Ema, uma jovem que se casa (natural àquela época, casar jovem assim) com um médico viúvo (mas não muito mais velho que ela), sr. Bovary (obviamente passando a compartilhar de seu sobrenome) e passa a viver com ele seus dias. Porém Bovary, tremendamente apaixonado pela esposa, não percebe que o casamento acaba sendo para ela uma decepcionante desilusão. Tendo crescido até parte da adolescência em um convento, através de romances e folhetins eróticos Ema foi situando suas referências sobre a vida a dois e desenvolvendo suas fantasias dentro desse mundo fictício, de galanteios, paixões ardentes e envolventes, erotismo, requintes, riquezas e cerimônias.
Naturalmente, diante de tais perspectivas, casar com um médico modesto e simples, sem grandes ambições e que se contenta com a vida que leva acaba sendo, à visão de Ema, nada mais que a representação de uma vida tediante e infeliz. E Ema passa a buscar formas -que não encontrou em seu casamento- de satisfazer as expectativas que outrora criou sobre a própria vida amorosa.
Naturalmente, diante de tais perspectivas, casar com um médico modesto e simples, sem grandes ambições e que se contenta com a vida que leva acaba sendo, à visão de Ema, nada mais que a representação de uma vida tediante e infeliz. E Ema passa a buscar formas -que não encontrou em seu casamento- de satisfazer as expectativas que outrora criou sobre a própria vida amorosa.
"Antes do casamento, havia pensado que sentia amor; contudo, como a felicidade resultante desse amor não surgia, com certeza tinha se enganado, pensava ela. E buscava saber qual era, afinal, o significado correto, nesta vida, das palavras 'felicidade', 'paixão' e 'arrebatamento', que nos livros pareciam tão bonitas."
E é nesse desenrolo que vemos toda a trama de anseios, luxúria, ambição, traição e desesperanças se desenvolver.
A escrita do Flaubert é maravilhosa, poética e me rendeu vários trechos sublinhados pra passar pra minha coletânea. Eu havia ouvido sobre Madame Bovary boatos de que era uma narrativa cansativa e massante, mas não compartilho da opinião agora que terminei a leitura. Ainda assim reconheço que ele é "o cara das descrições", o que tornava alguns trechos meio vagarosos. Ele descreve muito e em minúcias todos os visuais no livro. Sabe aquela história de "o escritor descreve até a forma que toma o vapor saindo de uma xícara de chá quente"? Pois bem: Flaubert.
De todo modo consegui conduzir a leitura de maneira leve e fluída em sua totalidade, apesar disso.
Uma coisa muito interessante nessa obra é a maneira com que Flaubert conduz a narrativa de modo a permitir a nós, leitores, vermos a gradativa construção da vida de Ema e seus desejos. Quase todas as páginas são exposições da perspectiva dela, e vemos todo o processo de formação do caráter dessa mulher que, a princípio esperançosa com relação aos amores de seu possível futuro, acaba presa a um casamento monótono que a martiriza, transformando seus antes doces desejos em desesperança e, por fim, necessidade luxuriosa de se ver ao menos momentaneamente livre das amarras do matrimônio, através de breves mas vorazes "pulos de cerca".
Também é interessante ver como o amor de Ema pela cultura -livros, música, moda- que caracterizava os membros da elevada sociedade fascinava o marido, já muito apaixonado por ela. É contrastante a diferença entre os dois; ele cômodo, simples, resignado e satisfeito com pouco e Ema sempre querendo explorar aquilo que não está tão próximo de seu alcance. O desencanto que Ema sofre com o marido fica claro.
A escrita do Flaubert é maravilhosa, poética e me rendeu vários trechos sublinhados pra passar pra minha coletânea. Eu havia ouvido sobre Madame Bovary boatos de que era uma narrativa cansativa e massante, mas não compartilho da opinião agora que terminei a leitura. Ainda assim reconheço que ele é "o cara das descrições", o que tornava alguns trechos meio vagarosos. Ele descreve muito e em minúcias todos os visuais no livro. Sabe aquela história de "o escritor descreve até a forma que toma o vapor saindo de uma xícara de chá quente"? Pois bem: Flaubert.
De todo modo consegui conduzir a leitura de maneira leve e fluída em sua totalidade, apesar disso.
Uma coisa muito interessante nessa obra é a maneira com que Flaubert conduz a narrativa de modo a permitir a nós, leitores, vermos a gradativa construção da vida de Ema e seus desejos. Quase todas as páginas são exposições da perspectiva dela, e vemos todo o processo de formação do caráter dessa mulher que, a princípio esperançosa com relação aos amores de seu possível futuro, acaba presa a um casamento monótono que a martiriza, transformando seus antes doces desejos em desesperança e, por fim, necessidade luxuriosa de se ver ao menos momentaneamente livre das amarras do matrimônio, através de breves mas vorazes "pulos de cerca".
Também é interessante ver como o amor de Ema pela cultura -livros, música, moda- que caracterizava os membros da elevada sociedade fascinava o marido, já muito apaixonado por ela. É contrastante a diferença entre os dois; ele cômodo, simples, resignado e satisfeito com pouco e Ema sempre querendo explorar aquilo que não está tão próximo de seu alcance. O desencanto que Ema sofre com o marido fica claro.
"Após o aborrecimento dessa decepção, seu coração ficou de novo vazio, recomeçando a série dos dias monótonos.
Iam, pois, continuar assim, uns após outros, sempre os mesmos, incontáveis, sem surpresas! As outras existências, por mais insípidas que fossem, tinham, pelo menos, a possibilidade do inesperado. Uma aventura trazia consigo, às vezes, peripécias sem fim, o cenário transformava-se. Mas para ela nada surgia, era a vontade de Deus! O futuro era um corredor escuro, que tinha, no extremo, a porta bem fechada."
Iam, pois, continuar assim, uns após outros, sempre os mesmos, incontáveis, sem surpresas! As outras existências, por mais insípidas que fossem, tinham, pelo menos, a possibilidade do inesperado. Uma aventura trazia consigo, às vezes, peripécias sem fim, o cenário transformava-se. Mas para ela nada surgia, era a vontade de Deus! O futuro era um corredor escuro, que tinha, no extremo, a porta bem fechada."
Eu, no entanto, não terminei a leitura com o pensamento de que "esse é um livro sobre adultério e suas consequências", por mais que, obviamente, ele gire em torno disso. Não é um livro ilustrando a depravação moral de uma mulher que se joga em mil casos amorosos transando loucamente com todos os homens que vê. O sentimento que me seguiu foi o da aflição de uma mulher que, desde jovem num ambiente que inibe qualquer tipo de paixão -Ema cresceu num convento, e além do convento havia a sociedade da época-, nutriu desde cedo expectativas, sonhos e anseios sobre sua vida a dois e seus amores -tendo esses anseios se fundamentado nos romances fictícios que lia- e que subitamente se vê diante da realidade insípida (e por vezes mortificante, admitamos) que acaba por se fazer a vida de vários casais.
"Começava a sentir a depressão que nos causa a repetição da vida, quando nenhum interesse a dirige, nenhuma esperança a estimula."
Mas de nada adianta fazer conjecturas a respeito das percepções que tive do livro se não pararmos pra analisar o contexto em que vivia Flaubert quando o lançou -(ano).
Era uma época em que esse tipo de assunto -traição, sexo, paixões femininas- era tabu, e quem falasse sobre estaria proferindo escândalos.
Mas Flaubert foi lá e foi o primeiro a falar sobre, abertamente - e não apenas sobre o dito adultério, mas sobre o marasmo que acaba engolindo a existência de muitos casais e que acaba por induzir os envolvidos a procurar fora do casamento (e isso não implica necessariamente em casos extraconjugais - esse só foi o modo que o escritor escolheu para ilustrar a questão) o que não encontraram dentro dele.
E ele foi preso e julgado por ter lançado o livro, só pra termos uma ideia dos extremos a que se chegava para se coibir a discussão -e possíveis manifestações- de tais comportamentos.
Se hoje o machismo ainda existe em doses nojentas, podemos potencializar isso pra época de Flaubert. A visão de que a mulher era ventre, barriga que gera e prolifera a espécie era ainda gritante, e ai de quem falasse de seus desejos humanos.
Era uma época em que esse tipo de assunto -traição, sexo, paixões femininas- era tabu, e quem falasse sobre estaria proferindo escândalos.
Mas Flaubert foi lá e foi o primeiro a falar sobre, abertamente - e não apenas sobre o dito adultério, mas sobre o marasmo que acaba engolindo a existência de muitos casais e que acaba por induzir os envolvidos a procurar fora do casamento (e isso não implica necessariamente em casos extraconjugais - esse só foi o modo que o escritor escolheu para ilustrar a questão) o que não encontraram dentro dele.
E ele foi preso e julgado por ter lançado o livro, só pra termos uma ideia dos extremos a que se chegava para se coibir a discussão -e possíveis manifestações- de tais comportamentos.
Se hoje o machismo ainda existe em doses nojentas, podemos potencializar isso pra época de Flaubert. A visão de que a mulher era ventre, barriga que gera e prolifera a espécie era ainda gritante, e ai de quem falasse de seus desejos humanos.
"-Não nos devemos acostumar a prazeres impossíveis, tendo à nossa volta mil exigências...
-Imagino...
-Não, não pode imaginar, porque não é mulher."
-Imagino...
-Não, não pode imaginar, porque não é mulher."
E mais: se lançarem um livro sobre isso e ele for bem aceito, não demorará muito para que a traição não seja mais algo tão escandaloso, e aí ninguém mais segura as mulheres!
Não é difícil entender o mecanismo do pensamento que levava assuntos desse gênero a serem tão reprimidos.
"Mas Carolina, se o que importa era o assunto a ser tratado no livro e não a história e a habilidade da escrita de Flaubert em si, qualquer um poderia lançar qualquer coisa sobre adultério e viraria clássico!"
Mas Flaubert faz isso de um jeito mestre! O livro É bom. A escrita de Flaubert É boa e a história VALE SIM a pena ser lida.
E por mais que lançar um livro sendo o primeiro a tratar de algo tão evitado na sociedade de sua época seja notável por si, não é apenas por isso que a obra de Flaubert merece o título de "clássico".
"Mas também é um livro feminista?"
Olha, não sei. Essa certamente é uma interpretação a que o livro da espaço, mas acredito que o propósito do autor era realmente quebrar o tabu.
E convenhamos, já estava na hora.
(Talvez ao longo da resenha eu tenha dado a entender que apoio as traições de Ema e não tenha nada contra o adultério, mas eu sou terminantemente CONTRA infidelidades, sim. Sou do time de quem defende que separações não são opção depois que duas pessoas se submeteram consensualmente ao compromisso de um casamento. Mas de certa forma não julgo Ema como UMA VÍBORA TRAIDORA, porque a entendo. Entendo suas tristezas, medos e aflições, e lamento pela tristeza de sua vida -e de sua morte.)
Não é difícil entender o mecanismo do pensamento que levava assuntos desse gênero a serem tão reprimidos.
"Mas Carolina, se o que importa era o assunto a ser tratado no livro e não a história e a habilidade da escrita de Flaubert em si, qualquer um poderia lançar qualquer coisa sobre adultério e viraria clássico!"
Mas Flaubert faz isso de um jeito mestre! O livro É bom. A escrita de Flaubert É boa e a história VALE SIM a pena ser lida.
E por mais que lançar um livro sendo o primeiro a tratar de algo tão evitado na sociedade de sua época seja notável por si, não é apenas por isso que a obra de Flaubert merece o título de "clássico".
"Mas também é um livro feminista?"
Olha, não sei. Essa certamente é uma interpretação a que o livro da espaço, mas acredito que o propósito do autor era realmente quebrar o tabu.
E convenhamos, já estava na hora.
(Talvez ao longo da resenha eu tenha dado a entender que apoio as traições de Ema e não tenha nada contra o adultério, mas eu sou terminantemente CONTRA infidelidades, sim. Sou do time de quem defende que separações não são opção depois que duas pessoas se submeteram consensualmente ao compromisso de um casamento. Mas de certa forma não julgo Ema como UMA VÍBORA TRAIDORA, porque a entendo. Entendo suas tristezas, medos e aflições, e lamento pela tristeza de sua vida -e de sua morte.)
Uma citação:
"Se encontrava numa dessas crises em que a alma inteira mostra indistintamente o que encerra, como o oceano, que nas tempestades se abre desde as espumas da margem até a areia dos seus abismos."
"Se encontrava numa dessas crises em que a alma inteira mostra indistintamente o que encerra, como o oceano, que nas tempestades se abre desde as espumas da margem até a areia dos seus abismos."

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