26/07/2017

Perdas & Ganhos

Da Lya Luft
Não canso de falar o quanto gosto dessa escritora e admiro essa mulher que, desde o primeiro livro seu que li, chegou para ocupar com autoridade uma colocação de mérito entre meus autores favoritos. Ela sempre, invariavelmente, vai estar em qualquer lista de recomendações de escritores nacionais que eu fizer, na internet e na vida, e aqui venho falar da última lindeza de sua autoria que tive o privilégio de ter em mãos.
Perdas e Ganhos não é uma ficção sentimental e intensa ou tampouco uma coletânea de crônicas ou contos, como foram os outros livros dela que li até então. O tom de seu livro, como ela escreve nas primeiras páginas, talvez seja um pouco difícil definir, assim como o é para um compositor encontrar a melodia de uma música que ele quer criar mas ainda não existe fora de sua vontade. Mas numa simplicidade bonita, como fica claro para Lya e para nós, os leitores que a acompanham ao longo das breves (porque o que é bom sempre nos dá a impressão de que passa rápido demais) 156 páginas, o que temos é uma conversa íntima e franca entre ela e seus leitores, um diálogo que aborda vários tópicos com uma sinceridade e proximidade que nos toca e realmente passa a impressão de que ela está ali, ao nosso lado, sentada com um copo de limonada na mão (Perdas e Ganhos tem o clima leve e fresco de uma sombra no verão), um sorriso no rosto e a gentileza de quem fala com seus iguais e gosta disso. Perdas e Ganhos é uma conversa.

''Que livro é esse, então?
Eu não o chamaria de ''ensaios'', porque o tom solene e a fundamentação teórica que o termo sugere não são jeito meu. Certamente não é romance nem ficção. Também não são ensinamentos - que não os tenho para dar.
Cada um dê a essa narrativa o nome que quiser. Para mim é aquela mesma fala no ouvido do leitor, que tanto me agrada e faço em romances ou poemas - um chamado para que ele venha pensar comigo.''

Nesse livro, embora ela ressalte que não tem grandes ensinamentos a nos dar, Lya parece querer parar, depois de 64 anos vividos (idade que ela tinha quando o livro foi publicado, em 2003), para reunir e compartilhar conosco, seus leitores, impressões que ela teve sobre a vida durante esse tempo. Definitivamente posso dizer que aprendi com o livro e com o que ela tinha para falar e escreveu, porque apesar de ele não ser nem remotamente parecido com autoajuda, apesar de ela dizer que não tem o que ensinar, há muita sabedoria, muita mesmo, em todas aquelas páginas. Esse livro é uma conversa sincera e construtiva que seria bom que todos tivéssemos com alguma pessoa sábia, boa e com experiências a mais para nos acrescentar (não necessariamente por ter mais idade) em algum momento da vida. É uma reunião de doses de sabedoria que são bonitas de assimilar e que vamos sorvendo aos poucos e com leveza, da primeira à última página.
Lya transita, ao longo do livro, por diversos assuntos, mas o que eu notei mais frequente e que parece ter presença constante, mesmo que de forma sutil, em praticamente todos os capítulos, é a passagem do tempo, a idade numa crescente constante, a velhice. Perdas e Ganhos leva esse título principalmente porque nessas páginas Lya bate numa tecla necessárias diversas vezes: ter 60, 70, 80 ou mesmo 90 anos não são só males, não são só doenças, fraqueza, apatia ou velhice caquética, não são só perdas. Ficar mais velho tem seus ganhos também e eles são muitos. Lya fala sobre como é bom poder olhar para algumas coisas com uma visão diferente, mais experiente e sábia, sem dar grande significado a futilidades e sabendo lidar com as pessoas e a vida de maneira muito mais compreensiva e saudável.
Em determinado ponto do livro, Lya fala de uma frase muito difundida por aí, ''fulano é velho mas tem um espírito jovem''; pode ser um comentário lisonjeiro para alguns, mas Perdas e Ganhos é sobre como, na verdade, ter um ''espírito velho'' não é tão ruim assim - e quando é ruim, é por causa dos valores distorcidos que atribuímos à velhice.
Eu lia suas palavras e ficava pensando que quando eu crescer e tiver a idade dela ou mais, quero ser parecida com essa mulher; quero não ter medo de explorar as novas tecnologias por achar que só o conhecido, antigo e tradicional é válido; quero saber ver que a vida é bonita e vale a pena, mesmo com a dor nas costas que aparece de vez em quando; quero lembrar que um sorriso é mais bonito que uma carranca e que não devo ficar fazendo mais uso da cara feia e do mau humor só porque não tenho mais vigor físico o suficiente pra dançar a noite inteira; quero lembrar que dar risadas normalmente é um remédio melhor do que os psicotrópicos na prateleira que eu talvez precise pra me manter saudável e de pé aos 80 anos. Quero ter consciência dessas e de muitas outras coisas sobre as quais Lya fala em Perdas e Ganhos.
O livro é uma coletânea de pensamentos bem construídos e desenvolvidos em cima de uma miríade de tópicos diferentes, que giram muito em torno da esfera relacionamentos - relacionamentos com os filhos, os pais, o cônjuge, a família e muito, muito, muito sobre o relacionamento que temos com nós mesmos. Esses assuntos são conduzidos com abordagens pertinentes e necessárias; há um capítulo intitulado A gueixa no canto da sala que deveria ser leitura obrigatória PRA VIDA de todo mundo, onde Lya faz uma excursão a certas construções sociais que moldam ambientes familiares, indo da individualidade, segurança e autossuficiência daquela que antes de ser esposa ou mãe é mulher e pessoa, à discussão sobre a insegurança ocasionada pela falta de desenvoltura emocional de muitos homens a respeito da criação dos próprios filhos e condução de relacionamentos e afetividade no ciclo familiar.
Perdas e Ganhos é um diálogo; uma conversa sábia, saudável, necessária e pertinente. Uma conversa íntima com Lya e com nós mesmos.
E, além disso, é um livro bonito que me exigiu MUITA força de vontade pra não pegar um marca texto e sair ''rasurando'' (esse é o termo que o pessoal da biblioteca usaria, embora eu não concorde com ele) ele em 8 a cada 10 parágrafos, de tanto trecho bonito que fiquei com vontade de guardar.

''O QUE ESCREVO AQUI NÃO SÃO SIMPLES DEVANEIOS. SOU UMA MULHER DO MEU TEMPO, E DELE QUERO DAR TESTEMUNHO DO JEITO QUE POSSO: SOLTANDO MINHAS FANTASIAS OU ESCREVENDO SOBRE DOR E PERPLEXIDADE, CONTRADIÇÃO E GRANDEZA; SOBRE DOENÇA E MORTE. LAMENTANDO A PALAVRA NA HORA ERRADA E O SILÊNCIO NA HORA EM QUE TERIA SIDO MELHOR FALAR.''

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